
Stablecoins, câmbio e soberania monetária: por que os bancos centrais estão apertando as regras
Por Dr. Matheus Puppe
Resposta direta: Stablecoins são criptoativos desenhados para manter valor estável, quase sempre atrelados ao dólar. O mercado já passa de US$ 300 bilhões, e bancos centrais passaram a tratá-las como tema de estabilidade financeira. O Banco Central Europeu alerta que, se o uso crescer, os bancos perderão depósitos de varejo. O Banco Nacional Suíço aponta três canais de risco: perda de uniformidade monetária, desintermediação bancária e transmissão mais fraca da política de juros. Para países emergentes, como o Brasil, o risco é maior, porque uma stablecoin em dólar funciona, na prática, como uma conta em moeda estrangeira acessível pelo celular. Por isso, o Banco Central do Brasil passou a tratar operações com stablecoins dentro da lógica do mercado de câmbio, com regras específicas para transferências ao exterior e para carteiras de autocustódia. Para empresas do setor, stablecoin deixou de ser apenas tecnologia e passou a ser tema de câmbio, política monetária e compliance.
Do nicho cripto ao centro do sistema financeiro
Em 2020, o mercado de stablecoins valia menos de US$ 5 bilhões. Em 2026, passou de US$ 300 bilhões, segundo dados reportados pela Tech Times. Mais de 80% desse volume está concentrado em duas moedas, USDT e USDC, ambas atreladas ao dólar americano. Em fevereiro de 2026, o volume mensal transacionado em stablecoins chegou a superar o da rede ACH, um dos principais sistemas de pagamento dos Estados Unidos.
Esse crescimento mudou o lugar das stablecoins no debate regulatório. O que antes era visto como uma ferramenta interna do mercado cripto, usada para entrar e sair de posições sem passar pelo sistema bancário, passou a ser analisado como um possível concorrente dos depósitos bancários e da própria moeda nacional.
O Brasil é parte relevante dessa história. Dados da Receita Federal apontaram que a maior parte do volume de operações com criptoativos declaradas no país envolve stablecoins. Em um levantamento amplamente divulgado, 71,7% de R$ 1,58 trilhão em operações estavam ligadas a esse tipo de ativo. Ou seja, no Brasil, cripto já é, em grande medida, dólar digital.
O que os bancos centrais estão dizendo
O tom das autoridades monetárias mudou de forma perceptível em 2026.
Piero Cipollone, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, afirmou, segundo a PYMNTS: “If the use of stablecoins increases in the future, banks will also lose retail deposits”. Se o uso de stablecoins crescer, os bancos também perderão depósitos de varejo. A declaração é direta e parte de uma instituição que, tradicionalmente, evita alarmismo.
No mesmo sentido, Petra Tschudin, do Banco Nacional Suíço, detalhou três canais pelos quais as stablecoins podem afetar o sistema financeiro, conforme reportado pela Tech Times.
1. Uniformidade monetária. Em uma economia saudável, todas as formas de dinheiro em circulação são conversíveis entre si ao par. Um real no banco A vale exatamente um real no banco B. Quando parte da economia passa a usar moedas privadas, emitidas por empresas e atreladas a outra moeda soberana, essa uniformidade se fragmenta.
2. Desintermediação bancária. Os depósitos são a principal fonte de financiamento dos bancos para conceder crédito. Se os depósitos migram para stablecoins, o banco tem menos recursos para emprestar ou precisa buscar financiamento mais caro. O efeito final pode ser menos crédito ou crédito mais caro para famílias e empresas.
3. Transmissão da política de juros. Quando o banco central sobe ou desce juros, o efeito chega à economia principalmente pelos bancos. Um estudo de trabalho do próprio BCE, publicado em março de 2026, encontrou transmissão mais fraca da política monetária em bancos mais expostos a stablecoins. Na prática, isso reduz a capacidade do banco central de controlar a inflação.
O Standard Chartered estimou, em análise reportada pela Bloomberg, que até US$ 500 bilhões em depósitos podem sair de bancos de economias desenvolvidas em direção a stablecoins até 2028.
Por que o risco é maior em países emergentes
Se a Europa e a Suíça estão preocupadas, economias emergentes têm ainda mais motivo para atenção.
Nos países desenvolvidos, a stablecoin em dólar concorre com depósitos em moedas fortes, como euro e franco suíço. Em economias emergentes, ela concorre com moedas mais voláteis, em contextos de inflação mais alta e histórico de crises cambiais. Para o cidadão, ter dólar digital no celular, acessível 24 horas por dia, sem burocracia, pode ser muito atraente.
Esse fenômeno tem um nome conhecido na economia: dolarização. Historicamente, a dolarização exigia contas no exterior, compra de papel-moeda ou instrumentos financeiros complexos. A stablecoin reduz essa barreira a quase zero.
O risco mais grave aparece em momentos de estresse. Em uma crise de confiança, recursos podem sair de um banco, ou de um país, em questão de horas. Corridas bancárias sempre existiram, mas a velocidade e a facilidade de converter reais em dólares digitais e movê-los para fora do sistema doméstico são inéditas.
Há também a dimensão de soberania. Se uma parcela relevante da economia passa a operar em uma moeda privada atrelada ao dólar, as decisões de política monetária tomadas em Brasília perdem alcance, e a economia passa a depender indiretamente das decisões tomadas em Washington e pelos emissores privados das stablecoins.
Como o Brasil está regulando o tema
O Brasil tem uma particularidade importante: o mercado de câmbio é historicamente regulado de forma rigorosa, e a conversão de reais em moeda estrangeira e o envio de recursos ao exterior seguem regras próprias.
Com o Marco Legal dos Criptoativos (Lei 14.478/2022) e as Resoluções BCB 519, 520 e 521, o Banco Central estabeleceu o regime das Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAV) e passou a tratar determinadas operações com stablecoins dentro da lógica cambial. Em termos práticos, isso significa:
Operações com stablecoins podem ser enquadradas como câmbio. Compra, venda e transferência de stablecoins atreladas a moeda estrangeira, em determinadas situações, passam a se submeter a regras próximas às do mercado de câmbio, com deveres de identificação, registro e reporte.
Transferências ao exterior e para autocustódia têm regras específicas. O envio de stablecoins para fora do país ou para carteiras de autocustódia, aquelas em que o próprio usuário controla as chaves, passou a ter controles adicionais, incluindo limites e procedimentos de verificação. Esse é um dos pontos mais sensíveis, porque a autocustódia retira os recursos do perímetro regulado.
As prestadoras precisam de autorização. Empresas que já operavam no Brasil têm até 30 de outubro de 2026 para pedir autorização ao Banco Central. O processo avalia governança, capital, controles de prevenção à lavagem de dinheiro e capacidade operacional.
O objetivo regulatório é claro: permitir o uso das stablecoins, que têm benefícios reais em eficiência de pagamentos, sem abrir um canal paralelo e não supervisionado de câmbio e saída de capitais.
O contraponto: stablecoins também têm benefícios
Uma análise equilibrada precisa reconhecer que as stablecoins não são apenas risco.
Eficiência em pagamentos internacionais. Remessas e pagamentos entre países podem ser mais rápidos e baratos com stablecoins do que pelos sistemas tradicionais.
Acesso a ativos estáveis. Para pessoas em países com alta inflação, stablecoins oferecem uma forma de preservar valor.
Infraestrutura programável. Stablecoins podem ser integradas a contratos inteligentes, permitindo pagamentos automáticos, liquidação instantânea e novos modelos de negócio.
Competição. A pressão das stablecoins tem levado bancos e bancos centrais a acelerar a modernização dos próprios sistemas, como o Pix no Brasil e o desenvolvimento do Drex.
O debate, portanto, não é sobre proibir ou liberar. É sobre como incorporar essa tecnologia preservando a estabilidade financeira e a capacidade de política monetária. Por isso a pergunta que muitos fazem, regulação ou concorrência, tem resposta dupla: as duas coisas ao mesmo tempo.
O cenário internacional
O Brasil não está sozinho. Nos Estados Unidos, o GENIUS Act, sancionado em 2025, criou um regime federal para emissores de stablecoins de pagamento, com exigência de reservas integrais em ativos líquidos e supervisão. Na União Europeia, o MiCA estabeleceu regras para emissores de tokens referenciados a ativos e de tokens de moeda eletrônica, com limites para stablecoins em moeda estrangeira usadas em larga escala como meio de pagamento.
Há um ponto em comum entre esses regimes: todos tentam garantir que a stablecoin seja de fato estável, com reservas adequadas, e que seu uso como meio de pagamento não fuja do controle das autoridades. A diferença está no grau de abertura e nas preocupações locais. Os Estados Unidos, emissores da moeda de referência, tendem a ver as stablecoins em dólar como extensão da influência do dólar. Europa e emergentes tendem a vê-las como risco à própria soberania monetária.
O que muda para empresas e usuários
Para exchanges e prestadoras de serviços. Stablecoin passa a ser tema de câmbio e de política monetária, e não apenas de tecnologia. Isso exige controles de identificação reforçados, monitoramento de transferências ao exterior e para autocustódia, registros robustos e diálogo constante com o regulador. Quem não estruturar esses processos até 30 de outubro corre o risco de não obter autorização.
Para empresas que usam stablecoins em pagamentos. Importadores, exportadores e empresas de tecnologia que usam stablecoins para pagar fornecedores ou receber de clientes no exterior precisam verificar se essas operações estão adequadamente enquadradas nas regras cambiais e tributárias. A informalidade nessa área tende a ser cada vez mais arriscada.
Para bancos. A concorrência das stablecoins pressiona por produtos mais competitivos, como contas em dólar, pagamentos internacionais mais baratos e, eventualmente, depósitos tokenizados.
Para usuários. Ter stablecoins não é ilegal, mas a movimentação para o exterior e para carteiras próprias passou a ser mais controlada. É importante conhecer as regras, declarar corretamente à Receita Federal e usar prestadoras autorizadas.
Checklist para empresas que operam com stablecoins
Para quem presta serviços ou usa stablecoins na operação, alguns pontos merecem revisão imediata.
1. Mapeamento das operações. Identificar quais operações envolvem stablecoins atreladas a moeda estrangeira, quais são domésticas e quais envolvem transferências ao exterior ou para autocustódia. 2. Enquadramento cambial. Verificar, operação por operação, se há enquadramento nas regras cambiais e quais deveres de registro e reporte se aplicam. 3. Identificação de clientes e contrapartes. Reforçar os procedimentos de conheça seu cliente, especialmente para clientes com alto volume em stablecoins e para transferências a carteiras não custodiadas. 4. Travel rule. Garantir que as transferências entre prestadoras carreguem as informações de remetente e destinatário exigidas. 5. Monitoramento de padrões atípicos. Operações fracionadas para ficar abaixo de limites, saídas concentradas para autocustódia e movimentações incompatíveis com o perfil do cliente devem gerar alertas. 6. Tributação e declaração. Conferir se as operações estão sendo corretamente informadas à Receita Federal, inclusive as realizadas em plataformas estrangeiras. 7. Risco do emissor. Avaliar a qualidade das reservas e a transparência dos emissores das stablecoins oferecidas ou usadas pela empresa. 8. Documentação para a autorização. Para prestadoras, reunir as evidências de governança e controles que serão analisadas pelo Banco Central no pedido de autorização.
Esse checklist não substitui uma análise jurídica específica, mas ajuda a identificar onde estão os maiores pontos de exposição.
Perguntas frequentes
Stablecoin é a mesma coisa que dólar? Não. Stablecoin é um criptoativo emitido por uma empresa privada, que promete manter paridade com o dólar e, em tese, tem reservas para isso. O risco do emissor existe: se as reservas forem insuficientes ou mal geridas, a paridade pode se romper.
Comprar stablecoin é uma forma de comprar dólar? Economicamente, se parece. Juridicamente, o Banco Central passou a tratar determinadas operações com stablecoins dentro da lógica do mercado de câmbio, justamente por isso. O enquadramento exato depende do tipo de operação.
Posso transferir stablecoins para minha carteira de autocustódia? Sim, mas essas transferências passaram a ter regras específicas, com controles adicionais aplicados pelas prestadoras. A lógica é que, ao sair para a autocustódia, os recursos deixam o perímetro supervisionado.
As stablecoins podem ser proibidas no Brasil? O caminho adotado até aqui não é a proibição, e sim a regulação. O Banco Central tem sinalizado que quer incorporar a tecnologia sob regras claras.
Conclusão
As stablecoins chegaram a um tamanho em que deixaram de ser assunto apenas do mercado cripto. Bancos centrais da Europa e da Suíça já falam abertamente em perda de depósitos, desintermediação e enfraquecimento da política de juros. Para países emergentes, o desafio é ainda maior, porque a stablecoin em dólar reduz a barreira para a dolarização e acelera a saída de recursos em momentos de crise.
O Brasil respondeu com regulação: trouxe as operações com stablecoins para dentro da lógica cambial, criou regras para transferências ao exterior e para autocustódia e exigiu autorização das prestadoras. Para quem opera nesse mercado, a mensagem é objetiva. Stablecoin agora é tema de câmbio, de política monetária e de compliance. E as empresas que entenderem isso primeiro estarão mais bem posicionadas quando a concorrência entre dinheiro público e dinheiro privado ficar ainda mais intensa.
Tags
